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sábado, 25 de julho de 2009

Transformações necessárias

Enfrentar os impactos das mudanças climáticas, com medidas de adaptação e mitigação das emissões de gases de efeito estufa, exigirá esforços em todos os setores: a academia precisará de um enfoque mais multidisciplinar, o governo deverá se sensibilizar para a urgência do tema e a sociedade terá que compreender a necessidade de uma profunda mudança cultural.

Esses desafios foram debatidos nesta terça-feira (21) por cientistas e formuladores de políticas públicas no Painel Internacional de Especialistas em Megacidades, Vulnerabilidade e Mudança Climática Global, na sede da FAPESP, em São Paulo.

O evento, liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), tem o objetivo de traçar um mapa das vulnerabilidades das regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro frente aos efeitos do aquecimento global, com o objetivo de subsidiar políticas públicas de adaptação às mudanças climáticas.

Segundo o coordenador do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais, Fábio Feldman, a criação dos fóruns estaduais, em 2005, foi um avanço que permitiu aos estados uma maior articulação com as políticas municipais e federais. Ainda assim, prevalecem as dificuldades históricas na implantação de políticas nacionais relacionadas ao clima.

“Há dificuldades dos governantes para compreender que o clima é um tema para hoje, não para daqui a 20 anos. No Ministério da Ciência e Tecnologia, por exemplo, a estrutura para trabalhar nesse tema é muito pequena, mantendo o mesmo número de pessoas há mais de 15 anos”, disse.

Segundo ele, as principais propostas dos fóruns têm foco na elaboração de marcos regulatórios relacionados às mudanças climáticas em todos os níveis de governo. “Em São Paulo elaboramos uma política para criar um processo – ou seja, incluir na agenda governamental a obrigatoriedade de inventários e mapas de vulnerabilidades. Acreditamos que isso vá mobilizar a sociedade brasileira para um avanço concreto”, explicou.

Feldman declarou que há grandes dificuldades políticas para o estabelecimento de metas de emissões de gases de efeito estufa. “O problema é que as metas são entendidas como punição e não como oportunidade de inovação tecnológica”, afirmou.

Outra dificuldade importante no Brasil, segundo Feldman, é articular as políticas públicas de clima com políticas setoriais como as de transportes e saúde. Um exemplo disso, segundo ele, é a redução dramática do imposto sobre produtos industrializados (IPI) concedida pelo governo brasileiro, por causa da crise financeira.

“Com essa redução do IPI teremos uma imensa frota renovada de caminhões. Mas perdemos a oportunidade de articular essa iniciativa com as políticas climáticas, já que essa renovação será feita com uma tecnologia atrasada do ponto de vista do padrão de emissões. O padrão do diesel comercializado no Brasil é muito ruim, comparável apenas a alguns países da África”, declarou.

Segundo Feldman, a legislação não conseguirá, por si só, implantar as políticas de adaptação e mitigação. “Os dois avanços em políticas ambientais mais importantes que surgiram nos últimos anos foram o indicador de sustentabilidade ambiental da Bovespa e a decisão das redes de supermercados de só comprar carne com rastreabilidade, para evitar os produtos que devastem a Amazônia. Esses dois avanços não envolveram legislação”, disse.

Mudança cultural - O presidente da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), Fernando Rei, afirmou que propor medidas de adaptação e mitigação implica uma mudança cultural que, muitas vezes, é rechaçada pela sociedade.

“Muita gente acha que vai haver alguma revolução tecnológica que nos permitirá manter os atuais níveis de consumo. Há uma grande dificuldade da academia e dos órgãos ambientais para se confrontar com esse tipo de contrapropaganda”, disse Rei.

Para Rei, a resistência à mudança de hábitos por parte dos cidadãos indica que há uma tendência de transferir as responsabilidades ao poder público. “Embora a Constituição Cidadã já tenha completado 21 anos, seguimos construindo um projeto de nação no qual o cidadão tem muito poucos deveres. A Carta Magna, no entanto, destaca o compromisso da coletividade e do poder público na preservação da qualidade ambiental”, declarou.

Segundo Rei, é preciso também que a academia trate o problema do clima de forma mais multidisciplinar. “Nosso processo de ensino encaminha os alunos para um universo de certezas. Não geramos na academia alunos que trabalhem com dúvidas. A burocracia acadêmica dificulta a construção de um olhar científico multidisciplinar. No entanto, o tema da mudança climática é essencialmente multidisciplinar e, por isso, será preciso repensar a forma de se produzir conhecimento”, disse.

Rei afirmou que, em sua avaliação, as principais vulnerabilidades na Região Metropolitana de São Paulo dizem respeito à questão da saúde – com novos vetores de epidemias e qualidade da saúde pública – e ocupações em áreas sensíveis, especialmente em torno de mananciais.

“Para combater a ameaça que essas vulnerabilidades representam com a possível ocorrência de eventos extremos, será preciso discutir as políticas públicas. Mas temos perdido a oportunidade de fazer isso porque o mercado e a sociedade estão ainda muito ausentes do debate. Essa não pode ser uma discussão exclusiva da academia e do poder público”, declarou.

(Fonte: Fábio de Castro/ Agência Fapesp)

domingo, 19 de julho de 2009

Formiga ou elefante: Impactos serão sempre impactos

Reinaldo Canto - Jornalista e Consultor, foi diretor de comunicação do Greenpeace e coordenador de comunicação do Instituto Akatu -
Blog: cantodasustentabilidade.blogspot.com

Ao optar por um ou outro produto, por uma ou outra empresa, no seu ato de compra, o consumidor estará fazendo uma opção de futuro. Ao tirarmos o dinheiro ou cartão de nossa carteira, estamos fazendo muito mais do que uma simples compra, estamos a referendar uma determinada maneira de fazer negócios. E isso independe do nosso grau de consciência e informação. O nosso agir diz sim ou não todo o tempo. O fato de termos ou não informações suficientes para agir e escolher de forma consciente os produtos e serviços disponíveis será determinante para o futuro da humanidade.

A busca por um mundo menos insustentável passa, necessariamente, pela conscientização dos pequenos e grandes impactos ambientais, causados por todo tipo de atividade humana, seja ela individual, coletiva ou empresarial. Todas elas merecem atenção e um grande esforço que, por vezes, requer profundas mudanças culturais e comportamentais. Uma delas é o exercício da cobrança sistemática que todos nós devemos fazer em relação às práticas adotadas pelos primeiro e segundo setores (público e privado, respectivamente).

Recentemente, ao prestar consultoria para um grande grupo empresarial, com fábricas em diversos estados brasileiros, reforcei minha convicção quanto à relevância do cidadão exercer seu poder de decisão de consumo e seu direito à informação. Quem já entrou numa fábrica com turnos ininterruptos e produção 24 horas vai entender o que vou dizer. Essa produção em escala possui um impacto enorme em consumo de água, energia e matérias-primas, independente do setor de atividades.

Agora multiplique isso pelas fábricas do mundo, seus milhões de trabalhadores, e imagine o quanto está se utilizando dos recursos naturais disponíveis e a imensa responsabilidade que todos esses grupos empresariais têm no intuito de zelar pelo futuro das próximas gerações.

Apenas como exemplo ilustrativo, a gigante mineradora Vale do Rio Doce é responsável sozinha, vejam bem, pelo consumo de 4,5% de toda a energia elétrica do País (Estadão, 25/06). Portanto, as decisões tomadas pelas cúpulas diretivas de grandes grupos, como a Vale, não devem ser vistas meramente como algo de cunho privado e de interesse apenas de seus stakeholders. Elas devem e precisam ser acompanhadas por todos os cidadãos, por toda a sociedade brasileira. Uma decisão que reduza ou aumente os impactos causados por grandes corporações afetam a todos nós de uma maneira ou de outra.

Como colaborador do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, trabalhei com informações e dados estatísticos que dão a exata noção da importância da mudança comportamental necessária e vital de cada indivíduo que habita nosso planeta. São atos cotidianos que, ao longo do tempo, provocam impactos significativos para o esgotamento dos recursos naturais disponíveis. Fechar uma torneira, reduzir o tempo de banho, deixar de usar o carro e desligar aparelhos elétricos são algumas das inúmeras medidas que todos nós, cidadãos e habitantes dessa querida esfera azul, devemos tomar para garantir a preservação dos recursos naturais.

Tive o cuidado de fazer essa colocação para deixar bem claro o meu apoio como pessoa e como profissional de comunicação a todas as iniciativas que visem conscientizar a população para a urgente necessidade de reduzir seus impactos ambientais. Mas quero destacar o poder do consumidor. Ao optar por um ou outro produto, por uma ou outra empresa, no seu ato de compra, esse consumidor estará fazendo uma opção de futuro. Ao tirarmos o dinheiro ou cartão de nossa carteira, estamos fazendo muito mais do que uma simples compra, estamos a referendar uma determinada maneira de fazer negócios. E isso independe do nosso grau de consciência e informação. O nosso agir diz sim ou não todo o tempo.

O fato de termos ou não informações suficientes para agir e escolher de forma consciente os produtos e serviços disponíveis será determinante para o futuro da humanidade.

Exercício do poder transformador

As organizações em geral são ciosas de suas marcas e têm estado atentas à movimentação dos consumidores, das organizações que os representam e da imprensa. Essa sensibilidade cada vez maior é um importante aliado para que suas decisões levem em conta seus impactos sociais e ambientais de maneira cotidiana e permanente.

Muitas empresas têm dado, cada vez com maior freqüência, demonstrações de que estão em busca de ações ligadas aos critérios de sustentabilidade. Nos últimos dias, inclusive, temos acompanhado decisões da iniciativa privada dignas de aplausos.

A divulgação do relatório do Greenpeace que apontou a pecuária como grande responsável pelo desmatamento ilegal na Amazônia causou diversas reações de setores públicos e privados. Primeiro a reação indignada do Ministério Público Federal ao exigir ações do poder público. Depois a decisão que obrigou as três maiores redes de supermercados do País, ou seja, Wal-Mart, Pão de Açúcar e Carrefour, a suspender a compra de carne das fazendas e frigoríficos suspeitos de cometer as ilegalidades apontadas pelo documento do Greenpeace. Já há alguns anos, ONGs ligadas ao consumo pediam que fosse feito esse rastreamento pelos próprios consumidores. Perguntei inúmeras vezes, em supermercados que frequento, qual a origem da carne ali vendida. A resposta, invariavelmente, era um “não sei”. Agora, a pressão exercida pelas principais redes de varejo criou um círculo virtuoso, repercutindo em toda a cadeia produtiva da carne e isso deve reforçar a voz do consumidor.

Depois do anúncio das redes varejistas, o Ministério Público do Pará informou que outras 35 empresas suspenderam compras de frigoríficos e fazendas que foram denunciadas pelo desmatamento. Portanto, o consumidor deverá se sentir ainda mais encorajado a perguntar no supermercado de sua região qual a procedência da carne. E não deveria parar aí. Esse é um exemplo motivador para que o consumidor fiscalize, exija o que lhe é de direito e denuncie os desmandos das empresas que atuarem de maneira irresponsável e insustentável em qualquer ramo de atividade.

Além do mais, o resultado dessa pressão legítima da sociedade e da iniciativa privada servirá para que os setores produtivos acabem por mudar outras realidades tão graves quanto a pecuária na Amazônia brasileira.

Setor público também pode e deve agir

Se diversos setores da iniciativa privada já estão a agir, a área pública também tem muito mais para contribuir com a coletividade do que, simplesmente, fazer cumprir as leis e recolher impostos da iniciativa privada. Notadamente no que se refere à sustentabilidade, não deve existir fronteiras nem limites para uma ação positiva. Contratar empresas que utilizem critérios de responsabilidade socioambiental é uma delas. Nossas autoridades também precisam enxergar além e, por meio dessa visão ampliada e de longo prazo, fazer a sua parte na cobrança, e no apoio a todas as iniciativas do setor privado que causem impactos positivos ou negativos para o conjunto da sociedade.

Um exemplo interessante foi o publicado pela Carta Capital (em edição de abril/2009), sobre a siderúrgica Belgo Bekaert Arames, que passou a usar a água da chuva como insumo. Isso foi possível graças a um sistema de coleta instalado nas unidades de Contagem (Minas Gerais) e Hortolândia (São Paulo). A água armazenada é utilizada para resfriar as máquinas durante o processo de produção de arames. Para se ter uma ideia do benefício dessa medida, a economia chega a 10 milhões de litros de água por mês, o que corresponde, segundo Carta Capital, ao consumo de uma cidade com 2,2 mil habitantes. Essa notícia me chamou a atenção, pois outras empresas poderiam adotar procedimentos semelhantes e, quem sabe, até contar com o apoio de autoridades públicas.

Qual a dificuldade dos chefes de executivo (prefeitos, governadores e presidente da República) e dos líderes do legislativo (senadores, deputados e vereadores) em sentarem com os líderes do chamado segundo setor, para discutir medidas que contribuam para reduzir o consumo de recursos naturais e as emissões de poluentes, o aproveitamento de materiais e reciclagem, entre outros processos que farão uma imensa diferença como vimos nos exemplos anteriores? E os cidadãos/eleitores/consumidores como agentes propagadores de pressão e transformação devem cobrar de seus representantes que atuem de maneira pró-ativa na busca pelo desenvolvimento sustentável.

As mudanças climáticas, a perda da biodiversidade e a escassez de recursos são razões suficientes para que abandonemos definitivamente a ideia de viver num mundinho restrito e compartimentado. Se a universalização dos problemas ambientais já é de conhecimento geral, as soluções também vão partir do esforço coletivo sem barreiras ou paredes.

O que precisa estar claro para todos nós, independentemente de raça, credo ou classe social, é que a máxima de Lênin para a guerra vale também para as questões que envolvem a sustentabilidade e o meio ambiente. Segundo o principal artífice da revolução russa, “Você pode não se interessar pela guerra, mas a guerra está interessada em você”. Fechar olhos, ouvidos e boca, definitivamente não é uma opção.

Fonte: Envolverde.

sábado, 9 de maio de 2009

O Papel nosso de cada dia

Thiago Albuquerque

Pessoal esse artigo abaixo é bastante extenso, mais muito interessante e de grande valia para o nosso conhecimento. Ele relata a história do papel no Brasil e no mundo, seu uso, fabricação, impactos, do avanço do papel certificado, reciclagem, consumo responsável e medidas mitigadoras para amenizar os impactos do papel no meio ambiente. Vale apena conferir!!!


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Por Maria Gusman Ferraz*

O alto consumo de papel e a maior parte sendo produzido com métodos insustentáveis está entre as atividades humanas mais impactantes do planeta.
O consumo mundial de papel cresceu mais de seis vezes desde a metade do século XX, segundo dados do Worldwatch Institute, podendo chegar a mais de 300 kg per capita ao ano em alguns países. E nesta escalada de consumo, cresce também o volume de lixo, que é outro grande problema em todos os centros urbanos.

O Brasil é o quarto maior produtor de celulose do mundo e segundo a Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa) houve um crescimento de 7,1% nesta produção quando comparamos 2007 com 2008, com um total de 12,8 milhões de toneladas de polpa das quais aproximadamente 85% oriundas de eucalipto, sendo que nosso maior comprador é a Europa.

Os países europeus transferiram grande parte de sua industria de produção de polpa de papel para os países periféricos, onde a fragilidade das leis ambientais e a necessidade de gerar divisas se mostraram ávidos por acolher uma das mais impactantes indústrias. Que depois ficam com o ônus da produção, já que exportam a polpa de papel para os países centrais, que desta forma ficam livres dos efeitos danosos da produção.

No Brasil, 100% da produção de papel e celulose utiliza matéria-prima proveniente de áreas de reflorestamento, principalmente de eucalipto (85%) e pinus (15%). Mas já foi diferente, muita floresta nativa foi consumida para a produção de papel e muitas populações tradicionais e indígenas foram expulsas para dar lugar a exploração de madeira para a indústria de celulose.

Mas se a produção for feita de reflorestamento nos moldes das monoculturas e em grandes áreas, causa os mesmos impactos sócioambientais que as demais monoculturas, com o agravante de reduzida oferta de empregos por área, característica das monoculturas de pinus e eucalipto.

O avanço desses plantios comerciais tem crescido muito nos últimos anos para produção de polpa de papel, com conseqüente redução da biodiversidade e alto consumo de água. Cada árvore consome cerca de 35 mil litros de água por ano.

Para produzir 1 tonelada de papel são necessárias 2 a 3 toneladas de madeira, uma grande quantidade de água (mais do que qualquer outra atividade industrial) e muita energia - está em quinto lugar na lista das que mais consomem energia. O uso de produtos químicos altamente tóxicos na separação e no branqueamento da celulose também representa um sério risco para a saúde humana e para o meio ambiente, comprometendo a qualidade da água, do solo e dos alimentos.

O processo de fabricação e seus impactos

Matéria-prima básica da indústria do papel, a celulose está presente na madeira e nos vegetais em geral. No processo de fabricação, primeiro a madeira é descascada e picada em lascas (chamadas cavacos), depois é cozida com produtos químicos, para separar a celulose da lignina e demais componentes vegetais. O líquido resultante do cozimento, chamado licor negro, é armazenado em lagoas de decantação, onde recebe tratamento antes de retornar aos corpos d'água.

A etapa seguinte e a mais crítica, é o branqueamento da celulose, um processo que envolve várias lavagens para retirar impurezas e clarear a pasta que será usada para fazer o papel. Até pouco tempo, o branqueamento era feito com cloro elementar, que foi substituído pelo dióxido de cloro para minimizar a formação de dioxinas (compostos organoclorados resultantes da associação de matéria orgânica e cloro). Embora essa mudança tenha ajudado a reduzir a contaminação, ela não elimina completamente as dioxinas. Esses compostos, classificados pela EPA, a agência ambiental norte-americana, como o mais potente cancerígeno já testado em laboratórios, também estão associados a várias doenças do sistema endócrino, reprodutivo, nervoso e imunológico.

Mesmo com o tratamento de efluentes na fábrica, as dioxinas permanecem e são lançadas nos rios, contaminando a água, o solo e consequentemente a vegetação e os animais (inclusive os que são usados para consumo humano). No organismo dos animais e do homem, as dioxinas têm efeito cumulativo, ou seja, não são eliminadas e vão se armazenando nos tecidos gordurosos do corpo.

A Europa já aboliu completamente o cloro na fabricação do papel. Lá o branqueamento é feito com oxigênio, peróxido de hidrogênio e ozônio, processo conhecido como total chlorine free (TCF). Já nos Estados Unidos e no Brasil, o dióxido de cloro continua sendo usado.

Papel Certificado

O papel certificado é um grande avanço na redução do alto impacto que esta atividade produz, pois estabelece princípios e critérios que apelam para proteção e preservação da biodiversidade e para o desenvolvimento das comunidades locais, alem de utilizar pasta de papel isenta de cloro em suas operações de produção.

Desta forma, o papel certificado tem vantagens enormes sobre o papel branco, não certificado, mas não sobre o reciclado.

O papel reciclado não necessita de novo plantio ou derrubada de árvores, portanto ele tem vantagens sobre o papel branco de origem certificada, que necessitará de novos plantios, por melhor que sejam as prática em seu plantio e processamento.

Gera empregos por meio das cooperativas de recicladores, ajudando na solução de demanda de empregos por pessoas sem ensino formal, que não teriam chances de trabalho em outros setores.

Cerca de 50kg de papel reciclado evitam o corte de uma árvore e portanto a necessidade de novas áreas para o plantio, que poderiam estar sendo utilizadas para a produção de alimento ou manutenção de floresta nativa e para o seqüestro de carbono atmosférico.

O consumo de água no processo de reciclagem também é 50% menor.

No Brasil, os papéis reciclados chegavam a custar 40% a mais que o papel virgem em 2001. Em 2004, os preços estavam quase equivalentes e o material reciclado custava de 3% a 5% a mais. A redução dos preços foi possibilitada por ganhos de escala e pela diminuição da margem média de lucro.

Reciclagem

No Brasil, apenas 37% do papel produzido vai para a reciclagem. De todo o papel reciclado, 80% é destinado à confecção de embalagens, 18% para papéis sanitários e apenas 2% para impressão.

O atual desafio é aumentar a produção e construir um mercado mais competitivo para os reciclados. Porém, o setor esbarra na precariedade do sistema de coleta seletiva ou na completa inexistência dele na maior parte do país.

Faltam também leis, a exemplo do que ocorre em alguns países europeus, que responsabilizem os fabricantes e comerciantes pela coleta e reciclagem de embalagens, jornais, revistas e outros materiais pós-consumo.

Outro ponto a observar é que a reciclagem também é uma indústria que consome energia e polui. Por isso, se o que almejamos é uma produção sustentável, capaz de garantir os recursos naturais necessários para a atual e as futuras gerações, o melhor a fazer é reduzir o consumo e começar a exigir que as empresas adotem medidas mais eficazes de proteção ambiental. Como consumidores, esse é papel de cidadão que podemos adotar.

A expansão do setor, com objetivo de atender ao mercado externo, deve ser vista com mais cautela colocando-se na balança comercial também os custos ambientais.

Para minimizar os danos, consumidores precisam rever seus hábitos e exigir mudanças no modo de produção.

Consumo responsável

Uma pesquisa do Instituto Akatu revelou que 74% dos brasileiros querem comprar produtos que não degradem o meio ambiente. “O que era um nicho de mercado hoje é uma exigência”, afirmou o diretor do Akatu, Hélio Mattar.

Atitudes pró ativas

-Reduza o uso de papel (e de madeira) o máximo possível.
-Evite comprar produtos com excesso de embalagem
-Ao imprimir ou escrever, utilize os dois lados do papel.
-Revise textos na tela do computador e só imprima se for realmente necessário.
-Dê preferência a produtos reciclados ou aqueles que trazem o selo de certificação do FSC.
-Evite consumir papel cujo branqueamento seja feito com cloro o hidróxido de cloro (ligue para o SAC das empresas e exija que elas adotem uma produção mais limpa e com controle de efluentes).
-Use filtros, guardanapos e toalhas de pano em vez dos de papel.
-Recuse folhetos de propaganda que não sejam de seu interesse.
-Separe o lixo doméstico e doe os materiais recicláveis para as cooperativas de catadores (80% do papel que consumimos é na forma de embalagens).
-Organize-se junto a outros consumidores para apoiar ações sócioambientais e pressionar o governo a fiscalizar empresas, criar leis de proteção ambiental e programas de incentivo à produção limpa.


Portanto, o uso de papel certificado deve substituir o uso do papel branco comum, mas não o reciclado. Papel reciclado não vem diretamente da floresta, vem de outro papel que um dia já foi árvore


O objetivo da promoção do uso do papel certificado FSC é o de reduzir e até eliminar os processos destrutivos da produção de celulose predominante. Mas em nenhum momento deve-se abandonar a reciclagem de papel.


*Maria Gusman Ferraz - Doutor em Ecologia, pesquisador da Embrapa
Meio Ambiente (ferraz@cnpma.embrapa.br)



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Referências importantes

A competição das empresas pela consciência verde. Disponível em:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EMI8495-15224,00.html

O papel e os impactos de sua produção no ambiente. Disponível em:
http://www.ecolnews.com.br/papel.htm

Papel certificado começa a ganhar espaço do reciclado. Disponível em:
http://painelflorestal.com.br/exibeNews.php?id=4012&cod_editoria=3&
url_back=index.php&pag=0&busca=

Produtos SCA certificados pelo FSC . Disponível em :
http://www.forestproducts.sca.com/modules/pdf/Brochure/
graphic/FSC/FSC_pt.pdf

Manuais práticos do consumo consciente. Disponível em:
http://www.akatu.org.br/akatu_acao/publicacoes/manuais-praticos-do-consumo-consciente

Fonte: Maria Cristina Tordin.

Pesqiusa: Portal do Meio Ambiente.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Amazônia sofreu destruição de 17% em cinco anos, diz ONU

Em apenas cinco anos, 17% da Flores Amazônica foram destruídos, segundo um relatório prestes a ser divulgado pelo Programa da ONU para o Meio Ambiente (Pnuma). A destruição se refere ao período entre 2000 e 2005. Durante este período foram queimados ou destruídos 857 mil km² de árvores - o equivalente ao território da Venezuela, segundo informações divulgadas pelo jornal francês Le Monde e confirmadas pelo Pnuma à BBC Brasil.

A maior parte do desmatamento ocorreu no Brasil, mas os outros sete países que também abrigam a floresta estão sendo responsabilizados pela Pnuma, com exceção da Venezuela e do Peru. O Pnuma prevê que o relatório final, com mais dados ainda sigilosos, seja divulgado durante o encontro anual de seu conselho administrativo, marcado entre 16 e 20 de fevereiro em Nairóbi, no Quênia.

"A progressão das frentes pioneiras na Amazônia e as transformações que elas introduziram são tantas que o movimento de ocupação dessa última fronteira do planeta parece irreversível", disse o órgão da ONU ao Le Monde.

Além do desmatamento, a grande corrida pela apropriação das gigantescas reservas de terra e das matérias-primas da região também tem um papel importante na deterioração da Amazônia, segundo o jornal.

"O modelo de produção dominante não leva em conta critério algum de desenvolvimento sustentável, conduz à fragmentação dos ecossistemas e à erosão da biodiversidade", afirmou o Pnuma.

A entidade também condenou a situação das populações que habitam a floresta, que "vivem uma situação de grande pobreza". "A riqueza retirada da exploração dos recursos naturais não é reinvestida na região", disse.

O Le Monde conclui o artigo citando que o Pnuma pede um maior envolvimento internacional para ajudar financeiramente os países que abrigam a floresta, e cita como possível caminho o Fundo Amazônia, que prevê o investimento de fontes estrangeiras para desenvolver projetos que combatem o desmatamento. (Fonte: Estadão Online)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Mudança climática pode acabar com a neve no Natal do Norte

As chances um Natal branco nas regiões temperadas do Hemisfério Norte diminuíram no último século e devem se reduzir ainda mais até 2100, segundo especialistas de clima.

Embora partes da Ásia, da Europa e da América do Norte ainda possam ter o chão coberto de branco nesta semana, o aumento de 0,7 grau Celsius nas temperaturas médias do planeta desde 1900 e as projeções feitas para 2100 indicam uma tendência inexorável.

"A probabilidade do solo estar coberto por neve no Natal já é menor do que há 50 anos, mas se tornará uma raridade ainda maior em muitos lugares até o final do século", disse Friedrich-Wilhelm Gerstengarber, climatologista do Instituto Potsdam para a Pesquisa do Impacto Climático.

Em Berlim, que fica no norte da Alemanha, por exemplo, as chances de neve no solo nos dias 24, 25 e 26 de dezembro caíram de 20 por cento há um século para aproximadamente 15 por cento em 2008, segundo ele. Até 2100, essa probabilidade deve cair para menos de 5 por cento.

A última vez que a capital alemã ficou coberta de Neve no Natal foi em 2001. Neste ano, está prevista uma nevasca "festiva", mas insuficiente para cobrir o chão de branco.

Em cidades com climas mais marítimos, como Londres, e com climas continentais suaves, como Paris, o "Natal branco" é ainda mais raro, e passará a ser uma extravagância dentro de cem anos, segundo o cientista. Para este ano, não há previsão de neve em nenhuma dessas capitais.

"A saudade da neve no Natal parece crescer conforme ela se torna mais rara", disse Gerstengarber à Reuters, lembrando que cidades baixas, como Berlim (30 metros sobre o nível do mar), provavelmente nunca mais terão neve acumulada no chão por volta de 2100.

Apostar se o Natal será ou não "branco" já é um passatempo em alguns países, como a Grã-Bretanha, e os palpiteiros terão de levar cada vez mais em conta o aquecimento global, segundo os cientistas.

Há cada vez mais sinais de que a ação humana -- especialmente a queima de combustíveis fosseis -- está provocando alterações climáticas no planeta. As emissões de gases do efeito estufa, como o dióxido de carbono, cresceu cerca de 70 por cento desde 1970, e na pior das hipóteses pode mais do que dobrar em relação aos valores atuais até 2050, segundo uma comissão científica da ONU.

O aquecimento deve provocar inundações, ondas de calor, tempestades e elevação do nível dos mares.

Paal Prestrud, diretor do Centro para a Pesquisa Climática e Ambiental, de Oslo, disse que o "white Christmas" ("Natal branco") imortalizado na canção de Irving Berlin (1940), famosa na voz de Bill Crosby, será cada vez mais raro nas próximas décadas, até mesmo na sua Noruega.

"A probabilidade de neve no Natal declinou ainda mais rápido em lugares como Oslo, onde as temperaturas médias no verão estão quase 1C mais elevadas, e a primeira parte do inverno está especialmente quente", disse Prestrud à Reuters.

"As condições para o esqui cross-country se deterioraram. Há agora uma média de cem dias (por ano) com pelo menos 25 centímetros de neve. Em 1900, eram 150", disse ele.
Na segunda-feira, não havia neve nas ruas de Oslo. (Fonte: Estadão Online)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

‘Legado é maior do que já foi feito’, diz Marina Silva

A senadora Marina Silva foi uma das principais companheiras de Chico Mendes na luta para impedir a destruição da floresta. Também ela acreana e filha de seringueiros, estava ao lado de Chico nos tradicionais empates, tentando impedir a ação das motosserras. Quinze anos após a morte do amigo, assumia o Ministério do Meio Ambiente com o objetivo de dar continuidade à luta, dessa vez pelos meios oficias. Hoje de volta ao Senado, avalia que o legado de Chico é ainda maior que os avanços alcançados após sua morte, mas considera também que ainda há muito a ser feito. Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida ao Estado.

Passados 20 anos da morte de Chico Mendes, o que mudou na vida dos povos da floresta?

Quando a luta do Chico começou, essas populações estavam inteiramente abandonadas, dando um jeito de sobreviver depois de mais de um século de exploração em um regime de semi-escravidão. No final da década de 70, começo da 80, foram surpreendidos com a venda dos seringais pelos antigos supostos donos dessas terras para fazendeiros do Sul e Sudeste. Ali começou um processo de expulsão em massa, sobretudo no caso do Acre e de Rondônia, para as periferias da cidades. Em Manaus, por exemplo, vive 75% da população do Estado do Amazonas. Mas como lá tem a Zona Franca foi possível suportar essa quantidade de pessoas. No caso do Acre, onde cerca de 53% vivem na capital, esse processo foi muito dramático, porque o Estado dependia e depende quase 80% de repasse da União e teve muita dificuldade em oferecer atendimento de saúde, educação e moradia para essas populações. O momento em que o Chico começou a luta era de muito desamparo. O que eles queriam era a não derrubada da floresta e que as pessoas pudessem continuar em suas colocações nos seringais. Aí que se cunhou o conceito de reserva extrativista. A primeira foi criada após a morte do Chico, e hoje já são mais de 11 milhões de hectares de reserva que beneficiam mais de 53 mil famílias em todo o Brasil. São conquistas muito importantes que podem ser celebradas. Mas quanto ao sonho de ver o desenvolvimento da região com a proteção dos índios e das comunidades, ainda não conseguimos tudo. Tivemos um processo de conquistas, mas elas não são plenas. Até porque a grande mudança que se queria era a mudança do modelo de desenvolvimento e isso é um desafio para o mundo inteiro.

Qual seria a principal mudança?

A idéia que se tinha de que a Amazônia era um lugar atrasado, sem presença de população, uma floresta a ser domada, foi mudando significativamente na mentalidade e na atitude da maioria dos brasileiros. Claro que ainda é um começo, mas é significativo. Até porque o outro modelo tem 300 anos de tecnologia, de incentivo, de recurso, de governos apoiando. O modelo do desenvolvimento sustentável é muito recente. Até bem pouco tempo tínhamos no Acre o esquadrão da morte. A história se faz de processos cumulativos e acho que há um acúmulo positivo, mas claro que temos um sentido de urgência e que os passos precisam ser acelerados no rumo do desenvolvimento sustentável.

Mas apesar de terem sido criadas dezenas de reservas, essas populações ainda não têm conseguido viver só do extrativismo. Muitas reservas ainda não têm nem sequer plano de manejo e de ação. Isso não ofusca um pouco o avanço obtido?

Acho que são processos que estão em curso. Da mesma forma que ainda as pessoas nas periferias do País não vivem nas condições de dignidade que a gente gostaria que elas tivessem. Por isso digo que são processos cumulativos. No meu entendimento esse trabalho não ficou só na demarcação da reserva, mas temos processos em curso. Por exemplo, a criação do Instituto Chico Mendes, criado para cuidar de todas as unidades de conservação do Brasil. Antes isso era cuidado só por uma diretoria do Ibama com dificuldades enormes. Ou a criação do Serviço Florestal Brasileiro, que assegura que as concessões de áreas priorizem essas comunidades. Saímos da lógica de só criar reservas em áreas remotas para criar também na frente de expansão predatória. Trabalhamos no Plano Amazonas Sustentável, no Plano de Comunidades, que ainda não foi lançado, mas prevê um programa de cerca de R$ 1,6 bilhão até 2010 para essas comunidades. Acabamos de aprovar no Congresso a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que garante aposentadoria para os extrativistas. É um processo que não vai de vento em popa porque existe uma resistência muito grande. Essa PEC ficou um ano na mesa aguardando votação e quando saí tive de ouvir com ironia que "a caridosa Marina Silva agora quer dar aposentadoria para os extrativistas". Claro que não está tudo perfeito, mas também não foi só demarcar e deixar as pessoas no meio do mato.

O problema é que enquanto isso não avança, tem-se a impressão de que o pessoal em algumas reservas vai desistindo do extrativismo como modelo econômico, como o caso da Reserva Chico Mendes, que apresenta um crescimento do cultivo de gado.

Eu concordo que deveria ser mais rápido, mas temos 300 anos na frente de outros modelos. E tem de sair do zero para fazer esse esforço. Essa mudança de algumas pessoas, que não são todas, que resolveram transformar um terreno em pasto para adotar o gado de fazendeiros que ficam ali fazendo pressão ao lado da reserva é um desvio. Agora essa fazendinha que tem ali dentro surgiu já na época dos empates. Quando a reserva foi criada essa região já estava desmatada. Não é tudo fruto de ação de seringueiro.

A senhora acha então que esse caso da Chico Mendes é mais exceção que regra?

Veja, o que estou dizendo é que a criação de uma reserva não é coisa de pequena monta. No Estado do Pará não se criava uma reserva há anos e se criou uma reserva de mais de 13 milhões de hectares dentro da terra do Cecílio Rego Almeida (na Terra do Meio), que era de grilagem. É a maior estação ecológica do planeta. Não quero elevação disso, mas mostrar que é um processo difícil, que levou ao assassinato da irmã Dorothy. São ações que estão alterando um processo histórico de apropriação indevida, de grilagem. Primeiro se assegurou a terra das comunidades tradicionais. O próximo passo é implementação. As comunidades têm toda a razão de querer urgência nisso, mas tem um caráter difícil mesmo. E não digo isso em uma perspectiva defensiva nem para dizer que está perfeito, mas é porque a luta do Chico Mendes tem conquistas. Se imaginar que foram inibidas 37 mil propriedades de grilagem no Amazonas, envolvendo Pará, Mato Grosso e Rondônia... Isso certamente tava incidindo sobre as comunidades. Então barrar um processo como esse é fazer um empate institucional que com as certeza as comunidades nunca teriam condições de fazer sozinhas. Então a luta do Chico teve essa vitória de ter transformado essa agenda em uma agenda de Estado.

É o governo assumindo o papel dos seringueiros da década de 80?

Hoje existem 27 delegacias especializadas da Polícia Federal fazendo um trabalho que antes era só dos seringueiros, dos índios se defendendo. Quem imaginaria 1500 serrarias sendo desconstituídas, não só embargadas? Isso era impossível 20 anos atrás. Ou então a Polícia Federal descendo com 480 policiais como ocorreu em 2004 para fazer a maior o operação de combate aos crimes ambientais no Mato Grosso? Quem imaginaria o índice de desmatamento caindo 72% no Estado, em que pese toda a contra-mão do governo? Isso tudo incide nas comunidades porque a pressão de tudo isso é sobre elas. Mas não tiro uma vírgula de que esse processo tem de andar rápido, que tem de ter um plano, que tem de ter a economia comunitária. Tanto que aprovamos no Senado uma emenda na Comissão do Meio Ambiente, em homenagem aos 20 anos da morte de Chico Mendes, R$ 100 milhões para tentar agilizar essa agenda em 2009.

A senhora acredita que essa foi a grande conquista de Chico Mendes?

Me lembro quando eu era pequena que meu pai ficou duas horas ouvindo num rádio chiando no meio do mato onde morávamos o discurso do Garrastazu Médice. Ao final ele virou para minha mãe e falou: "Mas ele não disse nada sobre o preço da borracha. E é claro que ele é que não ia falar porque estávamos abandonados no meio da floresta. Ninguém mais falava em preço da borracha. A grande conquista de Chico é que hoje a sociedade brasileira é sensível à Amazônia e às comunidades tradicionais.

E quando ele morreu o Brasil ainda levou uns dias para absorver a comoção que tinha sido no exterior.

Exatamente. Me lembro que alguns dias antes de ele ser assassinado eu fui a Xapuri e nos encontramos. Quando estava indo embora, ele falou que não ia ter jeito, iam pegar ele. Fiquei calada, e ele continuou. É 'nêga véia', dessa vez vão me pegar. Continuei calada, ele repetiu mais uma vez e eu disse para irmos a Rio Branco, denunciar na imprensa. E ele falou: 'Não adianta, toda vez que eu faço isso me dizem que eu estou me fazendo de vítima, que quero me promover, que quero virar mártir. Vi que estava desamparado, desolado. Quase que saindo da impotência para alguma potência. E agora o governo do Acre está pegando um empréstimo do Banco Mundial para o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Acre, que tem um forte olhar para essas comunidades. O Chico ganhou a irã e raiva de todo mundo porque foi ao Congresso americano denunciar um empréstimo do Banco Interamericano para o asfaltamento da BR-364 que não estava cumprindo com cláusulas de respeitos às comunidades locais e populações indígenas.

Chico dizia que queria viver, que não achava que sua morte poderia ajudar a causa. A senhora acha que se ele estivesse vivo teria se alcançado tudo que se conseguiu em conseqüência ao assassinato dele?

Eu preferia ele vivo, porque acho que a história sempre se elabora dentro das relações sociais que se vai construindo. Com ele vivo talvez fosse um caminho. Não acredito que, vivendo a crise ambiental que temos hoje, e com os avanços que tivemos na consciência das pessoas em todo o mundo sobre o papel da floresta, da biodiversidade, e o valor das populações locais em sua proteção, que as coisas pudessem continuar do jeito que elas estavam antes. Certo que seriam outros caminhos. Agora é claro que a morte do Chico deu visibilidade para isso, mas não porque ele foi morto, mas porque as idéias que ele defendia eram válidas, deu porque o que ele fazia tinha uma força de verdade que prevaleceu com sua morte. O tema era importante.

E quais são os principais passos daqui para frente para fortalecer essas comunidades? O Fundo Amazônia deve dar um impulso para o tão defendido pagamento por serviços ambientais?

O Fundo Amazônia tem de fazer isso. Até porque a União Européia está discutindo fazer um aporte de US$ 20 bilhões para países que têm floresta. E qualquer política que não seja capaz de ter um olhar para os serviços ambientais prestados por essas comunidades será aldo na contra-mão. Mas o desafio é a mudança de modelo predatório na pecuária, na produção de grãos, na exploração de madeiro, para um modelo de sustentabilidade. Chico Mendes tem de ser visto como alguém que deixou um legado que se espalhou para além da família, dos amigos. Se impôs de forma legítima no coração e na mente das pessoas e nas dinâmicas sociais e culturais. Não pode se medido pelo que foi feito até agora. As conquistas ainda são bem menores que esse legado, mas é ele que nos impulsiona para frente e nos dá força para fazer o bom combate na mudança estruturante que o Brasil precisa ter, que é a da sustentabilidade ambiental, econômica e social.
(Fonte: Giovana Girardi / O Estado de S. Paulo)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Repensando o Voraz Consumo de Carne

Rethinking the Meat-Guzzler

por Mark Bittman

Uma séria mudança no consumo de um recurso que os americanos dão por certo que podem ter em estoque – algo barato, abundante, amplamente apreciado e parte da vida diária. E não se trata de petróleo.

Trata-se de carne.

Os dois produtos compartilham muito em comum: como o petróleo, a carne é subsidiada pelo governo federal. Como o petróleo, a carne se sujeita a aumento de demanda à medida que as nações se tornam mais ricas, e isso, consequentemente, eleva o seu preço. Finalmente – como o petróleo – a carne é algo a que as pessoas são encorajadas a consumirem menos, enquanto que o custo imposto pelos produtores aumenta e se torna cada vez mais perceptível.

A demanda mundial por carne multiplicou nos últimos anos, encorajada pela crescente afluência e nutrida pela proliferação de gigantescas operações para alimentação de animais confinados. Essas amontoadoras fábricas de carne consomem enormes quantidades de energia, poluem as fontes de água, geram significativos gases produtores do efeito estufa e requerem uma quantidade sempre-crescente de milho, soja e outros grãos; uma dependência que leva a destruição de vastas áreas das florestas tropicais de todo o mundo.

Esta semana, o presidente do Brasil anunciou medidas emergenciais para refrear os desmatamentos e queimadas das florestas tropicais do país para plantio e terra de pasto. Apenas nos últimos cinco meses, o governo diz, 2.000 quilômetros quadrados foram perdidos.

O total mundial de fornecimento de carne foi de 71 milhões de toneladas em 1961. Em 2007, estimou-se a produção de 284 milhões de toneladas. O consumo per capita mais do que dobrou desde aquele período. (No mundo em desenvolvimento, isso cresceu duas vezes mais rápido, dobrando nos últimos 20 anos). Espera-se que o consumo mundial de carne dobre novamente até 2050, o que um especialista, Henning Steingield, das Nações Unidas, diz que resultará em um "crescimento implacável da produção de gado".

Americanos comem aproximadamente a mesma quantia de carne que comíamos há algum tempo, cerca de 230 gramas por dia; cerca de duas vezes mais do que a média global. Nós "processamos" (ou seja, criamos e matamos) aproximadamente 10 bilhões de animais ao ano, mais de 15 porcento do total mundial.

Cultivar carne (é difícil usar a palavra "criar" quando aplicada a animais em fazendas-fábricas) usa tantos recursos que é um desafio enumerar todos. Mas leve em consideração: uma estimativa de 30 porcento do solo livre de gelo da Terra está direta ou indiretamente envolvido com produção de gado, de acordo com a Organização de Agricultura e Alimento das Nações Unidas [United Nations' Food and Agricultural Organization], que também estimam que a produção de gado gera cerca de um quinto dos gases responsáveis pelo efeito estufa do mundo – superando o transporte.

Para colocar a demanda de energia da produção de carne em termos de fácil compreensão, Gidon Eshel, um geofísico do Centro Bard, e Pamela A. Martin, professora de geofísica da Universidade de Chicago, calcularam que, se os americanos reduzissem o consumo de carne em apenas vinte porcento, isso seria como mudar de um Sedan 77 para um Toyota-Prius ultra-eficiente. Similarmente, um estudo feito ano passado pelo Instituto Nacional de Ciências da Criação de Gado e Áreas de Pastagem do Japão [National Institute of Livestock and Grassland Science of Japan] estimou que 1 quilo de carne bovina é responsável pela quantia de dióxido de carbono equivalente a emitida pelo carro popular europeu a cada 250 quilômetros, e queima energia suficiente para manter acessa uma lâmpada de 100 watts por aproximadamente 20 dias.

Grão, carne e até mesmo energia são amarrados de tal maneira que podem trazer resultados desastrosos. Mais carne significa um correspondente aumento de demanda por ração, especialmente milho e soja, que alguns especialistas dizem que irá contribuir para preços mais elevados.

Isso será inconveniente para os cidadãos de nações mais ricas, mas isso pode ter trágicas conseqüências para aquelas mais pobres, especialmente se o aumento dos preços das rações desviar o cultivo de grãos da produção alimentícia que visa o consumo humano. A demanda por etanol já está fazendo com que os preços sofram aumento, e explica, em parte, o aumento de 40 porcento do índice calculado de custo alimentício feito pela Organização de Agricultura e Alimento das Nações Unidas.

Embora aproximadamente 800 milhões de pessoas no planeta sofram de fome ou desnutrição, a maior parte do milho e da soja plantados no mundo alimenta o gado, porcos e galinhas. Isso apesar da inerente ineficiência: cerca de duas ou cinco vezes mais grãos são necessário para produzir a mesma quantidade de calorias através da criação de gado do que através do consumo direto de grãos, de acordo com Rosamond Naylor, professora de Economia da Universidade Stanford. É preciso dez vezes mais grãos no caso dos animais de corte alimentados por grãos nos Estados Unidos.

O impacto ambiental de se produzir tanto grão para alimentar animais é profundo. A agricultura nos Estados Unidos – muita da qual serve agora a demanda por carne – contribui para quase três quartos de todos os problemas da qualidade de água dos rios e riachos nacionais, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental [Environmental Protection Agency].

Porque o estômago do gado é próprio para digerir capim, e não grãos, o gado criado industrialmente cresce apenas no sentido de ganhar peso rapidamente. Essa dieta torna possível remover o gado de seu meio natural e aumenta a eficiência do confinamento e abatimento em massa. Mas isso causa tantos problemas de saúde que a ministração de antibióticos é rotineira, em quantidade tamanha que pode resultar em bactérias resistentes a antibióticos que desafiarão a eficácia dos medicamentos para humanos.

Estes animais alimentados com grão, por sua vez, estão contribuindo para problemas de saúde entre os cidadãos mais ricos do mundo – problemas de coração, alguns tipo de câncer, diabetes. O argumento de que a carne provê proteínas úteis é válido, se a quantidade for pequena. Mas o "você tem que comer carne" entre em colapso em muitos níveis americanos. Mesmo se a quantia de carne que comemos não for nociva, necessária ela não é.

Americanos estão aproximando seu consumo per capita de carne bovina, de aves e de peixe (laticínios e ovos são à parte, e quase insignificantes) a quase 90 quilos ao ano, um aumento de 22 quilos por pessoa nos últimos 50 anos. Cada um de nós consome algo como 110 gramas de proteína ao dia, cerca de o dobro da cota recomendada pelo governo federal; disso, aproximadamente 75 gramas vêm de proteína animal. (Mesmo o nível recomendado é considerado por muitos especialistas em nutrição como sendo superior ao necessário). Parece que a maior parte de nós ficaria satisfeita com ao redor de 30 gramas de proteína ao dia, toda essa quantia obtida de fontes vegetais praticamente.

O que pode ser feito? Não há uma resposta simples. Melhor administração dos refugos, para alguns. Eliminar subsídios também poderia ajudar; as Nações Unidas estimam que eles representam 31 porcento do renda agrária mundial. Práticas agrárias aprimoradas ajudariam também. Mark W. Rosegrant, diretor de tecnologia de meio-ambiente e produção do Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar [International Food Policy Research Institute] sem fins lucrativos, diz: "Deveria haver investimento na reprodução e administração da criação bovina para reduzir o impacto necessário na produção de qualquer quantia de carne".

Há tecnologia, portanto. Israel e Coréia estão entre os países que experimentam usar os refugos animais para a obtenção de eletricidade. Uma das maiores operações referentes à suinocultura está em andamento nos Estados Unidos, com algum sucesso, com o fim de transformar esterco em combustível.

A longo prazo, não parece mais loucura acreditar na possibilidade de "carne sem alimentação" – carne produzida in vitro, criando células animais em um ambiente super-nutrido antes de ser possível a manufatura manipulada de hambúrgueres e bifes.

Outra sugestão é o retorno à carne de gado de pasto, uma alternativa bem realista se você aceita a psicologicamente difícil e politicamente impopular noção de se comer menos carne. Isso porque a criação pastoril jamais produziria tantas cabeças de gado quanto as fazendas-fábricas produzem. Ainda assim, disse Michael Pollan, autor do recente livro In Defensa of Food [sem tradução para o português]: "Em locais onde você não possa cultivar grãos, engordar vacas com capim sempre fará mais sentido".

Mas porcos e galinhas, que convertem grãos em carne com maior eficiência do que o gado, são a carne cada vez mais escolhida por produtores, somando 70 porcento do total de carne produzida, com sistemas industrializados produzindo metade da carne suína e três quartos da galinácea.

Uma vez, esses animais foram criados localmente (muitos Nova Iorquinos se lembram dos porcos de Secaucus), reduzindo custos de transporte e permitindo que seus refugos fossem dispersados em terrenos próximos. Agora, as instalações para produção de suínos, que se assemelham mais a prisões do que a fazendas, ficam a centenas de quilômetros da maior parte dos centros demográficos, e seus "lagos" de excremento poluem riachos e água subterrânea. (Somente em Iowa, instalações e fazendas de suinocultura produzem mais de 50 milhões de toneladas de excremento anualmente).

Esses problemas nasceram aqui, mas não se restringem mais aos Estados Unidos. Enquanto que a demanda doméstica por carne se estabilizou, a produção industrial de criação de gado está crescendo mais do que duas vezes mais rápido do que a produção por métodos tradicionais, de acordo com as Nações Unidas.

Talvez a maior esperança de mudança resida nos consumidores se tornarem conscientes dos verdadeiros custos da produção industrial de carne. "Quando você volta a sua atenção para os problemas ambientais dos Estados Unidos", diz o professor Eshel, "quase todos eles têm sua origem na produção alimentícia, especialmente na produção de carne. E as fazendas-fábricas só são uma 'otimização' enquanto a poluição das reservas de água é permitida. Se largar toda essa estrutura é algo dispendioso – mesmo ela carregando uma etiqueta de preço apenas um pouco superior a zero – toda a estrutura de produção alimentícia irá mudar drasticamente".

O bem-estar dos animais pode ainda não ser uma grande preocupação, mas, à medida que a criação de carne em confinamento se torna conhecida, mais pessoas que amam os animais podem passar a reagir. E o mundo não seria um local melhor se direcionássemos parte dos grãos que usamos para produzir carne para os nossos seres humanos semelhantes?

O preço real da carne bovina, de porco e de aves domésticas mostra-se estável, talvez tendo até decrescido, nos últimos 40 anos ou mais (em parte devido aos subsídios de grãos), embora comecemos a vê-lo crescer agora. Mas muitos especialistas, incluindo Tyles Cowen, professor de Economia da Universidade George Mason, diz que eles não acreditam que o preço da carne irá crescer o bastante para afetar a demanda dos Estados Unidos.

"Eu simplesmente não acredito que podemos contar com o preço nos mercados para reduzir o nosso consumo de carne", ele disse. "Talvez os preços sofram alta temporariamente, mas isso será quase que certamente neutralizado posteriormente. Mas se toda a culpa for colocada nos consumidores, não será um caso tão trágico".

Se as altas de preço não mudam hábitos alimentares, talvez a combinação de desflorestamento, poluição, mudança climática, aumento da fome, problemas de coração e crueldade contra os animais gradualmente encoraje o ato diário simples de comer mais plantas e menos animais.

O Sr. Rosegrant do Instituto de Pesquisa de Política Alimentar diz prever "uma forte campanha política para a redução do consumo de carne – como as campanhas ao redor do tabagismo – enfatizando saúde pessoal, compaixão pelos animais e compaixão pelos pobres e pelo planeta".


Não seria surpreendente para o professor Eshel se tudo isso tivesse um impacto verdadeiro. "O bem dos corpos das pessoas e o bem do planeta estão mais ou menos perfeitamente alinhados", ele disse.

A Organização de Agricultura e Alimento das Nações Unidas, em seu detalhado estudo sobre o impacto do consumo de carne do planeta feito em 2007, The livestock's Long Shadow – Environmental Issues and Options [sem tradução para o português], apresenta um ponto similar: "Há razões para otimismo, pois as conflitantes demandas por produtos animais e serviços ambientais podem ser reconciliadas. Ambas as demandas são envidadas pelo mesmo grupo de pessoas [...] a classe média-alta relativamente influente, que não mais está restrita a países industrializados. [...] Esse grupo de consumidores provavelmente está pronto para usar sua crescente voz para exigir mudança e talvez esteja inclinado a absorver os inevitáveis aumentos de preço".

De fato, os americanos já estão optando por comprar produtos mais amigos do meio-ambiente, escolhendo carnes, ovos e laticínios produzidos de forma mais sustentável. O número de mercados de fazendeiros mais do que dobrou nos últimos 10 anos, e não foge de ninguém o fato de que o mercado de alimentos orgânicos vem crescendo rapidamente. Tudo isso representa produtos que são mais caros, mas de maior qualidade.

Se as tendências continuarem, a carne talvez se torne um prato para dias excepcionais ao invés de um prato rotineiro.

Isso não será incomum, senão que, tão certamente como a industria automotiva irá ceder ao híbrido, a era dos 230 gramas de carne ao dia irá ter fim.

Talvez isso não seja lá um problema. "Quem disse que as pessoas precisam comer carne três vezes ano dia?".


Esse texto foi mais uma contribuição da Profª Márcia Marino.

Obrigado Profª.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Os impactos da Carcinicultura

Mais uma excelente notícia enviada pela Profª Márcia Marino. Agora o assunto é a carcinicultura, que é o cultivo de camarão em cativeiro. Atividade muito difundida aqui no Ceará, a carcinicultura vem enfrentando sérias crises. A matéria postada a seguir, foi retirada do Instituto Terramar.

Atendendo à solicitação do Fórum em Defesa da Zona Costeira – FDZCC, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados realizará uma audiência pública, no dia 20 de novembro, para discutir os impactos da carninicultura (cultivo de camarão em cativeiro).

Esse momento é fundamental para os movimentos sociais e comunidades costeiras que denunciam e combatem a atividade desde a década de 1990. Após um período de ápice produtivo, a carcinicultura entrou em declínio e, atualmente, 70% das fazendas de camarão dos Ceará estão abandonadas. Entre as razões que desencadearam a decadência da atividade está a sua insustentabilidade ambiental, que provocou o surgimento de doenças virais que dizimaram grande parte da produção de camarões cultivados.

No entanto, mesmo com todas as denúncias de agressões ambientais, violação de direitos humanos e descumprimento das leis ambientais, que já foram realizadas contra a carcinicultura, ainda se mantém um discurso de que esta é uma atividade capaz de gerar emprego e renda. A pergunta é: para quem e a que custo isso se realiza? Milhões de reais (oriundos de financiamentos públicos) já foram investidos nessa atividade. Atualmente, com a alta do dólar, o mercado externo voltou a ser atrativo para o setor e possibilidades de mais investimentos para sua reativação são estudadas.

É nesse contexto que a audiência do dia 20 de novembro se configura como fundamental para que movimentos sociais, fóruns, redes e comunidades costeiras e índigenas reafirmem que é necessário dizer NÃO à carcinicultura e reparar as áreas degradadas.

Por isso, o FDZCC e as comunidades esperam contar com a presença e o apoio de todas as pessoas que acreditam que é possível lutar por justiça ambiental.


O Instituto Terramar ainda revela 13 razões para dizer NÃO a carcinicultura. São elas:

1.Propaga um falso discurso de emprego e renda: a chegada da carcinicultura é sempre acompanhada de promessas de geração de emprego e renda. No entanto, isso não se configura como realidade, uma vez que os empregos gerados são precarizados pela falta de formalização e exposição dos/as trabalhadores/as a jornadas de trabalho exaustivas. No Ceará, no máximo 1 pessoa é empregada para cada hectare de viveiro de camarão (mesmo assim, esse emprego é sazonal e precarizado) .

2.Viola os direitos humanos: diante da resistência à expansão da carcinicultura, as comunidades sofrem violência física e psicológica. Casos de assassinatos e torturas, relacionados à atividade, já foram denunciados à justiça no Ceará e em outros estados.

3.Ameaça à saúde dos/as trabalhadores/as: o metabissulfito de sódio é um produto químico amplamente usado na despesca do camarão. Ao reagir com a água, o metabissulfito libera dióxido de enxofre (SO ), gás que causa irritação na pele, nos olhos, na laringe e na traquéia. Esse é considerado um agente de insalubridade máxima pela Norma N. 15 do Ministério do Trabalho. Doenças respiratórias, de pele e óbitos provocados pela exposição ao produto já foram identificados no Ceará.

4.Ameaça à integridade dos manguezais: a carcinicultura é responsável por inúmeros impactos ambientais vinculados ao ecossistema manguezal, dentre os quais destacamos: desmatamento de mangue em mais de um quarto (26,9%) dos empreendimentos existentes no Ceará, artificialização dos canais de maré e das gamboas e bloqueio dos fluxos das águas, comprometendo o equilíbrio ecológico deste ecossistema.

5.Destrói os meios de trabalho das comunidades tradicionais: por afetar diretamente o ecossistema manguezal, a carcinicultura inviabiliza o exercício das atividades tradicionais como a mariscagem, a cata de caranguejo e a pesca, impactando fortemente as mulheres que realizam a mariscagem. Enquanto 1 hectare de fazenda de camarão emprega, no máximo, 1 pessoa, em cada hectare de manguezal preservado trabalham 10 famílias.

6.Ameaça à segurança alimentar: a implantação de viveiros em áreas de manguezal reduz a capacidade de produção de alimentos associada a esse ecossistema que funciona como berçário da vida marinha, local de alimentação, abrigo e reprodução para 75% das espécies pesqueiras que colaboram para a soberania alimentar e sustentam a produção de pescado do Brasil. Além disso, para produzir 30 toneladas de camarão, a carcinicultura consome 90 toneladas de peixes marinhos para fabricação de ração. Esta produção de camarão é destinada, em sua grande maioria, ao mercado internacional e, mais recentemente, para abastecer os mercados dos centros urbanos.

7.Agrava o racismo ambiental: a atividade gera lucros exorbitantes para uma minoria (formada, principalmente, por homens brancos e ricos) e danos para a população mais pobre (composta em sua maioria por descendentes de negros e indígenas) que vivem em comunidades tradicionais. Enquanto uma minoria se apropria dos benefícios do “crescimento”, são externalizados ou transferidos à sociedade altos custos sociais e ambientais. Ou seja, a atividade proporciona luxo para os ricos e deixa para os pobres o lixo, os custos e os riscos da degradação ambiental.


8.Descumpre a legislação ambiental: a maior parte dos empreendimentos de carcinicultura, no Estado do Ceará, apresenta situação de irregularidade frente ao licenciamento ambiental, já que 51,8% dos empreendimentos em instalação, em operação ou desativados são irregulares.

9.Ocupa Áreas de Preservação Permanente - APP´s (Código Florestal Lei 4771/65 e Resolução CONAMA 303/02): a ocupação de APP´s é observada na maioria dos empreendimentos estabelecidos no Ceará, representando 79,5% das áreas onde esta atividade é desenvolvida.

10.Privatiza Terras da União: a implantação de viveiros de camarão normalmente é realizada em áreas que eram utilizadas para a pesca, mariscagem e uso de produtos da flora do mangue (cascas, tanino) por parte das comunidades tradicionais. No lugar destas atividades, a carcinicultura se introduz, tendo como marca principal a colocação de cercas em torno dos viveiros, impedindo o acesso de pescadores/as, agricultores/as, índios/as e marisqueiras às áreas ainda disponíveis para o extrativismo.

11.Contamina a água: o lançamento de águas, provenientes dos cultivos, no solo, nas gamboas e nos estuários é responsável pela contaminação do lençol freático e alteração da qualidade da água, ocasionando a mortandade de peixes e caranguejos. No Ceará, 77% dos empreendimentos não utilizam bacia de sedimentação (tratamento de água) e 86,1% não reciclam água. Além disso, muitos viveiros são construídos sobre aqüíferos, causando a salinização das águas, inutilizando- as para o consumo humano e destruindo as possibilidades da pequena agricultura ser desenvolvida pelas comunidades.

12.Privatiza e gera conflitos pelo uso das águas: segundo a FAO, para cultivar 1 Kg de camarão em cativeiro são necessários pelo menos 50 mil litros de água. Estima-se que as fazendas situadas no rio Jaguaribe consomem, anualmente, 58.874m/ha de água doce, vale dizer que essa demanda hídrica representa mais do que o consumo das principais culturas irrigadas do Baixo Jaguaribe (arroz e banana). No entanto, o valor cobrado aos carcinicultores pelo uso da água é de apenas 2% do valor real. Mesmo pagando tão pouco pela água, os empresários deste setor somam, atualmente, uma dívida de aproximadamente R$735.950,00 com a COGERH, alcançando um índice de 98% de inadimplência junto a este órgão.

13.Utiliza inadequadamente os recursos públicos: recursos que deveriam ser investidos na melhoria da qualidade de vida das populações são destinados ao desenvolvimento de uma atividade altamente predatória e socioambientalmente insustentável .Instituições financeiras como o Banco do Nordeste, Banco do Brasil e BNDES já disponibilizaram milhões de reais para os empreendimentos de carcinicultura. Em 2005, o Banco do Nordeste investiu R$ 59,4 milhões nesta atividade. Além do financiamento, os carcinicultores ainda recebem subsídios de água e desconto de 73% na tarifa de energia elétrica de 21h30 às 06h do dia seguinte.

Atualmente, a carcinicultura vive uma grave crise econômica agravada por problemas ecológicos como o surgimento de doenças virais nos camarões cultivados, a exemplo da mionecrose muscular (Myonecrosis Infectious Vírus – IMNV). Esta crise reflete um ciclo produtivo de desenvolvimento caracterizado pela insustentabilidade, o que fez com que a atividade, antes apresentada como uma das mais lucrativas da economia brasileira, entrasse em colapso, num processo de decadência e falência, expresso, dentre outros fatores, no abandono dos viveiros: no Ceará, 70% das fazendas de camarão foram abandonadas. Mesmo diante dos fatos, o discurso hegemônico dos governos e poderes econômicos continua alardeando esta atividade como “motor de desenvolvimento".